quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Violetas - Katia Portes Leão


Lia-se Floratta no bordado azul da camisa engomada do entregador. Maria esperava cobranças, anúncios de cheques devolvidos, cortes de luz devido às contas não pagas.
Flores?
Não. Não esperava flores. Verdade que nunca recebera flores em ocasião alguma, mas o espanto era outro e punha os olhos nas flores, paradas nas mãos do entregador, como fossem criaturas de outros mundos, como questionasse a natural beleza de cada pétala.
- Flores? –pensara alto.
- Violetas – disse, o entregador de mãos cansadas, nunca segurara um ramalhete de flores durante tanto tempo e, afinal de contas, que homem mandaria flores a uma mulher que não sabe que Violetas são Violetas? – são da família das gesneriáveas, pode-se notar por suas folhas ovadas, dispostas em rosetas e flores violáceas, nativas da África. Violetas-Africanas, senhora.
Arnaldo vestia todas as decisões de Maria: as calças marrom com camisas bege e meias pretas. Decidiu-se bem e sozinho desta vez: o roxo das violetas harmonizou-se bem com o sangue pisado de seu olho esquerdo. As violetas e violências têm algo em comum.

Como fosse uma murraça algo tão poético. Devia Maria sentir-se recompensada por um ramalhete de flores? O símbolo do desabrochar, o símbolo do melhor e mais belo momento da natureza. O melhor momento e a melhor forma para retratar-se?

Violetas.

O juiz, claramente seu igual, Homem, declara a sentença com sua pose e censo de justiça. Claro, por que não, violetas para ela e tudo se resolverá.
Pois bem, Sr. Juiz, setencie, utilize-se de sue bom censo na melhor aplicação do que podemos chamar de justiça. Favoreça nossas mulheres, vítimas de atrozes violências dos mais variados tipos e pesos e medidas. Puna o causador (e neste caso, que o masculino desta palavra esteja claro e evidente), puna, cobre dele a entrega de belas flores e algumas cestas básicas para esta mulher através de nossa justiça básica e rasa. E então, Maria sequer conseguirá repousar, dormir, por uma noite, uma hora, um minuto, pois a campainha de sua modesta casa no miserável bairro de Vista Alegre, ironicamente, claro, nomeado assim, jamais deixará de tocar.

As floriculturas terão recorde de vendas, nunca serão plantadas e colhidas tantas flores, nunca serão contratados tantos entregadores para tocar tanto e tantas vezes a campainha da casa modesta de Maria, no bairro Vista Irônica e talvez, por isso, alegre.

Maria, que nunca recebera uma flor sequer, terá sua casa invadida por flores, de todas as cores, espécies e regiões. As flores tomarão o espaço do sofá, se instalarão no forno, nos ralos, nos travesseiros, nos armários, nos azuleijos, nas redes elétricas, por dentro dos sapatos, nos rádios, nos potes de fermento, no teto, nos botões, nas ratoeiras, por dentro dos colchões, pelos cantos, emboladas ao pó, enroscadas em traças, baratas, mosquitos, as flores roubarão sua casa, seu lar, seu sossego.

Ok. Um vaso de flores como um bom pedido de perdão por seus olhos violáceos, por sua paz física violada.
Sim. Violetas. Um ramalhete de flores por cada violência religiosamente cotidiana, desde seu nascimento até sua morte.
E Maria sorrirá, bondosamente:
- Muito obrigada, senhor, muito justo!

Mulher é mesmo um bicho frágil, ouve-se, constata-se facilmente e em toda parte nos livros, nos discos, nas propagandas, nos dicionários de nossa língua.
Ouve-se por toda parte, por toda a vida, mulher é um bicho mortal mesmo, fraco, sensível.
Mulher é um bicho mãe.
Lava, passa e cozinha muito bem. Nasce-se mãe, morre-se mãe. E mãe ganha menos, óbvio.

Vamos, Maria, a campainha está tocando! Mais flores, mais agressões. Tudo bem, tudo bem, receba com um grande e agradecido sorriso o entregador, não o deixe esperando. Ponha as flores enfileiradas nas beiradas de suas janelas. Deixe-as morrer ao sol, negue-lhes uma gota d’água.
Torture-as.

Espere, Maria, pacientemente, pois é um privilégio que a nossa justiça seja cega, mas burra não.

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